Banner de Dead Days: dois homens gritam frente a frente sob o título do jogo Abrir o tomo

Avaliação

Dead Days

Teru volta à vida sem saber as regras de um jogo que já começou — e as respostas, quando vêm, valem a espera.

De todas as visual novels que eu já li, esta seria uma das que mais se destacou pra mim pelo fato de ela subverter vários aspectos de uma visual novel, ao ponto de ser uma experiência inesperada. Como o ponto forte desta visual novel são seus mistérios e revelações das suas grandes perguntas, tentarei não dar tantas informações além das básicas sobre esta leitura.

Gantz Days.

Dead Days é uma história sobre humanos com multifacetas lidando com circunstâncias extraordinárias, tentando fazer sentido de tudo e entendendo as regras de um jogo de vida ou morte que eles nem sabem que estão jogando. Nossa história segue um grupo de pessoas cujas últimas memórias são de terem sido mortas de maneiras diferentes e em circunstâncias diferentes, mas agora estão ali, em vida. O nosso protagonista começa a relembrar o que o colocou naquela situação: como ele morreu.

Teru, de camisa branca e gravata, parado num corredor azul e estreito
Teru começa a relembrar como morreu — e o quanto ele é, de saída, um homem difícil de defender.

Coisas nítidas sobre o protagonista Teru: o quanto ele é um homem desonesto, mentiroso, manipulador e miserável, um parasita que se agarra em pessoas com mais poder que ele e tenta sair de situação bajulando e usando fala mansa. A única virtude, e o que me fez continuar, foi a última decisão do protagonista em vida, antes de morrer e voltar à vida para esta situação: ele morreu fazendo um ato de virtude e sacrifício por alguém que ama, demonstrando que, apesar de falho, ele tem qualidades redimíveis.

Três personagens de Dead Days num corredor escuro, uma loira de uniforme, um homem de óculos e uma mulher de vestido escuro
O grupo se encontra sem saber que já está dentro das regras.

Após os flashbacks do protagonista, algumas cartas são colocadas na mesa. O padrão de que todos eles lembram de ter morrido é revelado por mensagens em seus celulares: eles foram trazidos de volta à vida para caçar fantasmas e anomalias à base de eletricidade. Caso não o façam, após alguns dias perderão a bateria de vida que foi injetada neles e voltarão a ser cadáveres.

Então eles são obrigados a caçar fantasmas para se manterem vivos, enquanto segredos são mantidos sobre a real proporção do que eles são ordenados a fazer — pessoas nas sombras acreditam que só iria atrapalhar eles saberem de toda a verdade. Isto acaba sendo muito parecido com Gantz em sua base inicial. A narrativa consegue criar sua identidade própria, apesar de tudo, através dos segredos que vão sendo revelados.

A caça.

A introdução estabelece o leitor e o ponto de vista do protagonista num conceito simples: ele e seus novos conhecidos foram trazidos de volta à vida, precisam caçar fantasmas de eletricidade que parecem humanos e se tornam monstros caso ameaçados e, em troca, continuam recebendo cargas de energia para continuar vivendo. Tudo isso estabelecido através do misterioso contato que se comunica com eles e organiza as caçadas.

Enquanto isso, o protagonista tenta descobrir as respostas sobre as suas circunstâncias.

Uma jovem sentada num corrimão à noite, tocando violão, com a cidade ao fundo
A caça começa simples. As rotas é que complicam o que cada escolha custa.

Não tem tanto foco em ação, mas para o tipo de leitura é decente o suficiente. A ação contra as criaturas estabelece a força sobre-humana dos personagens, enquanto as escolhas que o leitor pode fazer estabelecem as rotas. As rotas desta visual novel têm uma estrutura de escada, fazendo com que o leitor veja diferentes bad endings e consequências negativas, mas que de alguma forma explicam mais sobre o mundo e suas regras.

As bad endings têm história e as decisões são bem fáceis de se entender. O problema desta história é que, tirando a última rota, que se desbloqueia após fazer outras duas, o final delas não é satisfatório e explora pouco das circunstâncias e mais os dilemas pessoais das respectivas garotas.

Porém a leitura apresenta ameaças tanto na forma de criaturas espectrais e sobrenaturais quanto de pessoas que sabem mais do que está acontecendo do que o protagonista, e usam a falta de informação dele como vantagem contra ele.

Milf Days: Manami.

A rota da Manami, sendo minha segunda favorita, acaba girando em torno da imoralidade do protagonista estar se aproximando de uma mulher casada. É até interessante como a relação deles vai se desenvolvendo: a Manami tenta fazer sentido da nova situação e caçar monstros de noite sem o marido dela saber, escondendo os segredos, e o protagonista começa vendo ela como um elo fraco que ele pode manipular e aos poucos se apegando a ela e arrumando pretextos para se justificar. Assim como a Manami, é estabelecido de forma sutil para o espectador que o protagonista é mais do que um manipulador babaca que só sabe mentir.

A Manami tem uma personalidade agradável e cenas bonitas, e tem um foco bem trágico quando os dois mundos se chocam: o dela como mãe de família casada e o de caçadora de criaturas para continuar vivendo. Mas, assim como as outras rotas, o final dela não me deu muita satisfação, e ele fica menos satisfatório ainda depois das coisas que são reveladas em outras rotas.

Dito isto, eu gostei do quanto é maduro e de como a história não recorre a fazer personagens agirem de forma estúpida para progredir a uma conclusão. Por exemplo, o marido de Manami não é colocado como um abusador descontrolado apenas para Teru sair como bonzinho. As circunstâncias em si, fora do controle de todos os envolvidos, acabam sendo o motor para o conflito, me fazendo empatizar com todos os lados desta rota.

Gyaru Days: Aira.

Aira tem uma relação de simbiose com Teru por ambos serem desonestos com um coração de ouro. Eles são mais parecidos do que são diferentes, então isto faz a relação deles ser menos em volta de ambos e mais em volta das pessoas à volta deles. A Aira se dá bem com a amiga de infância de Teru, por exemplo, e vê que ela é uma garota honesta e bondosa e ainda assim gosta de estar ao lado de Teru. Teru, por outro lado, não ter abusado desta honestidade dela e não a ter manipulado para o benefício dele ajuda a Aira a ter mais respeito pelo homem que, para ela, era apenas um parasita desonesto e covarde. Ela faz uma afronta bem grande sobre o quanto ela é descolada e rebelde, mas no fundo ela é uma garota com um senso de justiça ativo.

A relação deles é mais como duas pessoas falhas que decidem ser falhas juntas, enquanto Teru coopera com Aira para desvendar o assassinato dela e pegar os culpados que a mataram. Se você quer ver uma relação de Bonnie e Clyde, então é este tipo de romance que terá aqui.

True Dead Days: Mao.

A rota da Mao só pode ser acessada após fazer ambas as rotas de Manami e Aira. Eu diria que esta é a rota verdadeira da visual novel e a junção de tudo o que podemos aprender nos bad endings e nas outras rotas. Mao é a amiga de infância do protagonista e inicialmente não se envolve com as partes sobrenaturais dele, sobre ele voltar à vida. O protagonista odeia tudo o que ela representa e odeia o fato dela tentar sinalizar virtudes para cima dele e controlar as decisões dele, por ela ver a pessoa que ele realmente é por dentro, por ela conseguir ver através das mentiras e manipulações dele. A relação de amor e ódio entre os dois é linda de se ver desenvolvendo.

Nesta rota, coisas que aprendemos em outras rotas vão reaparecendo e tendo de ser resolvidas, e isso coloca o protagonista Teru contra a parede e o faz ser a pessoa que ele precisa ser.

Banner de Dead Days, com o título do jogo sobre dois homens em confronto
A rota da Mao é onde o que as outras rotas só insinuaram precisa ser resolvido.

Existem momentos sutis onde são oferecidas ao protagonista saídas fáceis e formas desonradas de superar os seus oponentes, com muita coisa em jogo além do benefício próprio dele. E ainda assim ele decide fazer as coisas da forma mais virtuosa possível. Ajuda pessoas que, no lugar dele, o condenariam sem pensar duas vezes e que demonstram ser tão desonestas quanto ele é em sua pior versão. Mas, graças a atos heroicos dele, ele acaba despertando um senso de gratidão até em aliados pouco prováveis.

A presença da Mao neste conflito muda bastante o protagonista, e ela faz um papel de parceira e amiga, amante e heroína.

Another Days.

Sendo uma leitura de 15 horas ou menos, eu recomendo Dead Days caso você fique interessado na construção deste mundo e queira ver onde os corpos ressuscitados destes personagens falhos podem te levar. Existem muitos temas sensíveis, como estupro, suicídio, traição, tortura e cenas eróticas que não envolvem o protagonista.

Eu tenho um ditado de que uma obra com camadas de mistério deve ser julgada pelas respostas que dá a estes mistérios. Se você não está preparado para dar boas respostas a perguntas feitas durante a história, não as dê. Mas, se você responder, que faça ter valido a pena esperar.

Dito isto, as respostas para os mistérios de Dead Days, ao meu ver, foram bem dadas e bem explicadas, e eu recomendo Dead Days caso queira uma leitura interessante e curta.

O que aquece

  • Um herói relutante que não ultrapassa os limites do quanto ele é redimido
  • Um mundo de ficção urbana com reviravoltas e criaturas
  • Personagens bem estabelecidos tanto em design quanto em motivações
  • Gipsy Q

O que esfria

  • Apenas uma rota tem um final satisfatório; as outras parecem bad endings em comparação
  • As escolhas para as rotas não são intuitivas o bastante
  • Personagens sem rota mereciam histórias tão elaboradas quanto as que existem

Tags

Ficha técnica

Título
Dead Days
Plataformas
PC
Gênero
Visual novel
Duração
Cerca de 15 horas

Outras avaliações

Wallpapers das demais páginas (a desta review não se repete aqui).

Comentários

Comentários ainda não estão abertos.

Ainda não há comentários nesta página. Seja a primeira pessoa a deixar um carinho.